O compromisso

por Irineu Franco Perpetuo

Odoo • Image and Text

Pautas direcionadas, textos expurgados, entrevistas inventadas, fatos distorcidos para se adequarem a um objetivo preestabelecido: a enumeração desses procedimentos parecerá perturbadoramente familiar a quem acompanha o dia a dia do jornalismo do Terceiro Milênio. Em O compromisso, contudo, eles aparecem bem delimitados no tempo e no espaço. São as características definidoras da usina ininterrupta de fake news da URSS, descrita por um observador para lá de sarcástico: Serguei Dovlátov (1941–1990).

Tema de filme premiado no Festival de Berlim, em 2018, o irônico e icônico Dovlátov mereceu um monumento na cidade de sua juventude, São Petersburgo (então Leningrado), e batizou uma rua naquela que adotou na idade madura — Nova Iorque. Admirado por Joseph Brodsky, só pôde publicar de fato após a emigração para os EUA, em 1979, deixando doze obras que vêm sendo apresentadas ao leitor brasileiro pela Editora Kalinka.

Frustrado com a impossibilidade de publicar em Leningrado e brigado com a segunda mulher, Dovlátov, em 1972, saiu em busca de espaço em Tállin, capital da Estônia — então república da URSS — com reputação de ter um ambiente mais “liberal”. Ficou no pequeno país báltico por dois anos e meio, colaborando em periódicos locais, e essa experiência é a base da novela (publicada primeiramente em 1981).

O livro é formado por doze “compromissos”: notícias de jornal, seguidas dos bastidores de sua apuração. Matérias aparentemente inócuas, como o nascimento de um bebê em um feriado ou o jubileu do hipódromo, podem descortinar preconceitos raciais e esquemas ilegais de apostas, enquanto o velório de um figurão desencadeia uma delirante e carnavalizada sátira que dialoga diretamente com o universo de Dostoiévski.

Enfrentando diretamente tabus soviéticos, como o antissemitismo e o alcoolismo, Dovlátov faz desfilar uma galeria de tipos memoráveis, nos quais os mais sãos parecem ser, sintomaticamente, os mais desajustados, como o fotógrafo Mikhail Jbankóv, alcoólatra irrefreável, e Érik Buch, o sedutor de mulheres de meia-idade que não tem pejos de falsificar entrevistas ao trabalhar para uma imprensa na qual “o jornalista cria sem parar, a ponto de seu desejo tomar o lugar da realidade”.

Realidade que aqui se apresenta, por assim dizer, em contornos bastante fluidos. O fato de o narrador em primeira pessoa se chamar Serguei Dovlátov não implica descrição fidedigna de fatos. No auge de seus poderes criativos, com um humor cáustico que não poupa ninguém, ele manipula a seu bel-prazer reportagens realmente publicadas e fatos imaginários, personagens existentes e fictícios, inserindo deliberadamente contradições e incoerências em seus relatos. Em certo ponto, chega a colocar em cena — e ridicularizar — Boris Alikhánov, seu alter ego e autor-narrador de duas de suas novelas, Parque Cultural e A zona. Nada é confiável ou garantido em um livro no qual, como afirmam as tradutoras no posfácio, “a coisa mais verdadeira é sua arte”.

 


Texto de orelha de O compromisso, de Serguei Dovlátov. Tradução e posfácio: Daniela Mountian e Yulia Mikaelyan

Kalinka, 2019.


Sobre autor e colaborador

Serguei Dovlátov. "O escritor russo Serguei Dovlátov (1941–1990), filho de um judeu e de uma armênia, nasceu na época da Segunda Guerra Mundial em Ufá (Bachkiria), passou a maior parte de sua vida em Leningrado/Petersburgo e, em 1978, emigrou para os EUA; viveu seus últimos anos em Nova Iorque, onde morreu, antes de completar 50 anos. Na União Soviética ele pertenceu à chamada contracultura, à cultura dissidente, e praticamente não foi publicado. Nos EUA lançou doze livros, foi o redator-chefe do jornal O novo americano e colaborou na rádio Svoboda. Seus contos eram publicados na revista The New Yorker, seus livros foram traduzidos para o inglês, coreano, japonês e outras línguas. Depois de sua morte, tornou-se na Rússia um dos autores mais queridos e publicados da segunda metade do século 20. Os gêneros principais de Dovlátov são os contos, normalmente reunidos por temática (O compromisso, 1981, A zona, 1982; A mala, 1986), e novelas curtas (A estrangeira, 1986; A filial, 1990). Ele dá continuidade à prosa russa (Púchkin, Tchékhov) e americana (Ernest Hemingway, Sherwood Anderson), tirando de histórias corriqueiras o seu enredo, organizado quase como um poema. O princípio de Gógol do “riso entre lágrimas” se converte em Dovlátov num “sorriso amargo” diante da vida como ela é, de uma existência imperfeita." Ígor Sukhikh (Parque Cultural, Kalinka, 2016) .

Irineu Franco Perpetuo é jornalista e tradutor, colaborador da revista Concerto e jurado do concurso de música Prelúdio, da TV Cultura. Coautor, com Alexandre Pavan, de Populares & Eruditos (Ed. Invenção, 2001), e autor de Cyro Pereira – Maestro (DBA Editora, 2005) e dos audiolivros História da Música Clássica (Livro Falante, 2008), Alma Brasileira: A Trajetória de Villa-Lobos (Livro Falante, 2011) e Chopin: O Poeta do Piano (Livro Falante, 2012). Publicou, pela Editora Globo, a tradução de dois livros de A. S. Púchkin: Pequenas Tragédias (2006) e Boris Godunóv (2007). Traduziu ainda, entre outros, Memórias de um caçador (Ed. 34), de Ivan Turguêniev; A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, e Memórias do Subsolo, de Dostoiévski (ambos pela Coleção Folha/Grandes Nomes da Literatura, 2016); Vida e Destino (Ed. Alfaguara, segundo lugar no Prêmio Jabuti 2015)/Tradução) e A Estrada (Ed.Alfaguara, 2015), livros de Vassíli Grossman; e Mestre e Margarida, de Bulgákov (Ed.34). Em 2017, publicou o livro História concisa da música clássica brasileira (Alameda Casa Editorial).