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Entrevista com Aurora Bernardini
Titulo Original: -
 
Aurora Fornoni Bernardini
 
2012
 
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A forma pela qual uma cultura é recebida por outra se relaciona muito com seus divulgadores. Entre os intelectuais brasileiros, as incursões na literatura russa começaram desde o início do século XX. Linhas elogiosas sobre autores russos saíram da pena de escritores do porte de Monteiro Lobato e Lima Barreto, mesmo ainda motivados pelos lançamentos europeus e por traduções intermediadas com outras línguas. De meados de 1940 em diante, os olhares voltados para os russos começaram a se aprofundar, e surgiram as primeiras traduções feitas do original. Foi nessa década em que Boris Schnaiderman deu início a seu caminho como crítico, professor e tradutor, e a um dos capítulos mais importantes da difusão da cultura russa no Brasil. E as letras russas continuaram a angariar adeptos entre nossos grandes literatos, nos anos de 1960 se debruçaram sobre elas figuras como Otto Maria Carpeaux, Augusto e Haroldo de Campos e Aurora Fornoni


Fornoni Bernardini, crítica, tradutora e escritora, que nesse decênio iniciava sua colaboração com o prof. Boris e seus estudos sobre o futurismo russo.
“O que tem de ser tem muita força”, é nessa frase de Guimarães Rosa em que Aurora resume seu encontro com a cultura russa, permeado por coincidências da vida, que, por sua ousadia e talento, foram transformadas em “marcos”. Desde o “russinho” por que se apaixonou ainda no colegial e que a levou a estudar o idioma, outras tantas veredas russas foram percorridas e criadas por ela. Assim, dos formalistas a Vladímir Maiakósvski, de Marina Tsvetáieva a questões da tradução e da criação, a entrevista passou por temáticas variadas, seguindo a presença polivalente de Aurora Bernardini, que, sem descuidar dos clássicos, mantém os olhos sempre atentos em novas poéticas.
[Daniela Mountian, março/2012]

 
 
 

Trajetórias

Revista Kalinka: Você nasceu na Itália, mudou-se para o Brasil aos 13 anos e graduou-se na USP em língua inglesa, mas já no mestrado a arte russa aparece como tema de pesquisa. Como a cultura russa passou a fazer parte de sua vida?

Aurora Bernardini: Tudo o que me leva de volta ao passado vem tendo um sabor particular para mim, agora. É que, com o passar dos anos, certas circunstâncias se tornam marcos. Como o fato de haver começado a estudar a língua russa quando ainda aluna do colegial, nos idos de 1958. Para tanto houve a concorrência de muitos fatores: como diz Guimarães Rosa, o que tem de ser tem muita força. Primeiro, devido à fábrica de cloro e soda cáustica que meu pai dirigia nas IRFM (Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo), na época, nós morávamos no limite entre São Paulo e São Caetano, reduto de muitas vilas de imigração russa, onde a costureira, o relojoeiro, o padeiro e até os feirantes ainda falavam russo. Segundo, uma dama russa meio misteriosa (ela dizia que a intimidade perde as pessoas – mas não deixou de contar-me que na casa de sua mãe tocava Tchaikóvski), por estar casada com um engenheiro grego diretor da fábrica de rayon, veio a ser nossa vizinha e, por não ter filhos que lhe fizessem companhia, deu de convidar-me repetidamente à casa dela. Terceiro e mais importante: no autobus que fazia o longo itinerário São Paulo-São Caetano, encantei-me por um russinho e decidi-me, num ímpeto de romantismo, a aprender o idioma dele. Foi assim que numa bela tarde madame Hélène Toole viu-me chegar à casa dela com a gramática da Marina Dolenga debaixo do braço. Nosso relacionamento durou três anos, e, quando ela partiu e eu entrei na Faculdade, já havia treinado meu russo rudimentar com os moradores de Vila Alpina, Vila Bela, Vila Zelina e adjacências.

RK: Na época do mestrado, no fim de 1960, você foi convidada para lecionar no departamento de russo da USP pelo prof. Boris Schnaiderman [Boris Schnaiderman foi o primeiro professor do curso de língua e de literatura russa da USP, criado em 1963]2. Poderia falar um pouco dessa colaboração?

AB: A colaboração com Boris Schnaiderman, de quem também fui aluna no Curso Livre de Língua Russa, foi longa e aventurosa. Escrevi sobre ele um longo ensaio na Revista da Biblioteca Mario de Andrade n. 67, cuja republicação, em partes, autorizo:

Conheci o professor Boris Chnaiderman na década de 1960. Primeiro pelos inúmeros artigos sobre literatura russa que ele escrevia no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo, pelos quais eu, ainda colegial e já cativada por aquele estranho mundo de estepes nevadas e corações ardentes, me sentia fascinada.
(...)
Ao analisar seu trabalho
A poética de Maiakóvski através de sua prosa (publicado em 1971, pela editora Perspectiva, com o mesmo nome), lembro que o professor Rui Coelho se admirava com a modéstia do candidato, sóbrio a ponto de “esconder sua tese nas notas de rodapé!”. Não apenas para nós, estudiosos de literatura russa, o livro de Maiakóvski foi uma sensação. Sucediam-se discussões, referências e até espetáculos inspirados na autobiografia sintética Ia sam (Eu mesmo), na relação do poeta com Lili Brik e nas suas entrevistas.
(...)
A colaboração entre os “Irmãos Campos” e Boris Chnaiderman é um capítulo muito importante em nossa vida acadêmica. A partir da publicação, pela editora Civilização Brasileira, em 1968, de
Poesia russa moderna3, sua principal obra escrita em colaboração (...), a poesia russa – talvez a maior de todas as artes russas, como lembra o professor no prefácio – tornou-se, de algum modo, artigo de exportação, no Brasil.
(...)
(...) Boris Chnaiderman crítico, atento, cuidadoso, refratário às paixões súbitas que levam à adesão ou rejeição imediatas. Sabe estabelecer relações e discutir com os autores e, uma vez feito o balanço, reconhecer o que eles têm de mais ou menos válido.
4

RK: Imagino que, na época em que começou a lecionar russo, havia pouco material disponível em português, sobretudo pensando em textos teóricos... Qual era a base desse departamento? Qual era o perfil dos seus primeiros alunos? O que eles buscavam ali?

AB: Os primeiros alunos eram ligados à Rússia por laços sentimentais – em geral seus pais ou parentes tinham lá suas raízes –, ou então por laços ideológicos. Ainda uma época em que a URSS era uma grande potência e em que seus grandes feitos (incluindo o Sputnik) nos impressionavam a todos. Havia o método francês Didier de audiovisual, que usávamos para os alunos iniciantes, com muito sucesso (aprendiam a falar e a escrever em um semestre!), e que existe (na França) ainda hoje. Havia a gramática em português da Nina Patápova, e Augusto de Campos (meu ex-colega de curso) e eu ainda utilizamos a gramática de madame Stoliaroff. O meu exemplar havia sido trazido da França pelo meu ex-professor de Literatura Inglesa George Kenneth Buthlay, com quem, por iniciativa de Paulo Vizioli, fui convidada a trabalhar mais tarde, mas eu já havia aceitado o convite de Boris Schnaiderman. E não me arrependi: a aventura da Rússia seria inigualável.
Já da primeira vez em que estive em Moscou (1973), na Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba, e fiquei admirada pelo zelo e pela abnegação daquelas docentes se debruçando sobre a cabeça de tantos africanos, coreanos, indianos, peruanos, chilenos, brasileiros, etc., trouxe de lá uma porção de apostilas e de manuais especializados que nos serviram muito no Brasil. Material é que não faltava. Quando então passei a dar aulas de literatura, os clássicos foram o grande manancial, como ainda o são – hoje. Lembro haver distribuído entre os alunos (muito numerosos) os livros que tinha em casa (e que nunca mais voltaram). Mas fiquei contente pelo interesse despertado.


Sobre algumas questões teóricas

RK: Quando esteve em Yale, no início de 1990, você teve contato com o crítico Victor Erlich, ex-orientando de Roman Jakobson. Na ocasião, Erlich, como você conta, afirmou que “após o formalismo russo, nada de mais original ou importante tinha surgido no domínio da Teoria da Literatura”. Você ainda concorda com isso?

AB: Cada vez mais. O próprio Derrida, no ápice de seu “desconstrucionismo”, assevera: qualquer análise é, essencialmente, estruturalista.

RK: Em linhas gerais, claro, sem desconsiderar as contribuições individuais, qual é o grande legado dos formalistas russos [De representantes como Eikhenbaum, Jakobson, Propp e Tyniánov, a “escola formalista russa”, enquanto uma corrente organizada, originou-se em 1915 e sobreviveu até cerca de 1930, momento em que o “formalismo” foi publicamente condenado na Rússia.]?
 
AB: Terem proposto estudar as diferenças entre um texto qualquer e um texto artístico e terem chegado objetivamente, pela descoberta & análise de uma série de procedimentos, a definir o que vem a ser a tão mal traduzida literaturnost.

RK: Você é estudiosa da Semiótica Russa e também cotraduziu obras de importantes teóricos da área, como de Eliazar Meletínski (Arquétipos Literários, Ateliê Editorial, 2002) e de Viatchesláv Ivánov (Dos diários de Serguéi Eisenstein e outros ensaios, Edusp, 2009). Mesmo que de forma sucinta, poderia apontar as principais diferenças entre a Semiótica Russa e a Ocidental? O que a russa traz de original?

AB: Os estudos de Semiótica Russa foram se ampliando nessas últimas décadas, abarcando a História da Cultura Mundial, a Antropologia Cultural, o Mito, a Linguagem. Contemplam igualmente as propostas da Semiologia (francesa) e da Semiótica (anglo-americana), que em muitos aspectos anteciparam e cujos limites expandiram. Entre as diferenças está a aplicação do assim chamado “princípio dinâmico”, que permite ao pesquisador separar os elementos mais arcaicos na descrição sincrônica dos elementos “não oficias” de certa tradição cultural e, remontando às fontes desta, examinar as vias de sua transformação. Fora isso, a Escola de Tártu e os estudos de Iúri Lótman são um manancial de propostas originais.


Sobre vanguardistas e modernistas russos

RK: No seu mestrado e doutorado, você fez uma análise comparada do Futurismo Italiano e o Cubofuturismo Russo, de representantes como Maiakóvski e Khliébnikov. Na sua visão, a corrente russa guarda marcas da europeia, ou das ideias de Marinetti?

AB: Novamente, alguns representantes do Futurismo Russo têm expressões comuns ao Futurismo Italiano, mas – de uma maneira geral – dele se distanciaram e, principalmente graças aos estudos de Jakobson, desenvolveram teorias próprias.

RK: Entre seus ensaios e críticas, aparecem estudos de Púchkin, Tolstói e Dostoiévski até os contemporâneos, mas suas escolhas como tradutora trazem principalmente autores russos “não clássicos”, como Velímir Khliébnikov (Ka, Perspectiva, 1977), Iúri Tyniánov (Tenente Quetange, Cosac&Naify, 2002) e Isaac Bábel (Marina, uma peça e cinco histórias, Cosac&Naify, 2003; Exército da Cavalaria, Cosac&Naify, 2005). No campo da tradução, você prefere lidar com novas experiências estéticas?

AB: As novas experiências estéticas são apaixonantes, mas eu também começo por procurar no velho as sementes do novo.

RK: Você acompanha a Kalinka desde o começo, é colaboradora da revista e participou dos projetos da editora, como de Encontros com Liz e outras histórias, de Leonid Dobýtchin, livro que prefaciou e fez a revisão do estilo. Como a obra de Dobýtchin se insere no modernismo russo? O que o autor traz de inovador?

AB: Uma das grandes características de Dobýtchin é o humor. O humor, em quaisquer das suas dimensões, realça a importância da forma (geralmente sintética): os pequenos nadas que lhe dão graça veiculam numa forma “insólita” conteúdos que podem ser corriqueiros, ou “camuflam” conteúdos corriqueiramente indizíveis. Nesse sentido inovador a obra de Dobýtchin se insere na modernidade. No modernismo russo, só encontro paralelo com ele em Iúri Oliecha.


Sobre Marina Tsvetáieva

RK: Em 2006 o livro Indícios Flutuantes (Martins-Martins Fontes, 2006), antologia de poemas de Marina Tsvetáieva (1892-1941), foi publicado com seu prefácio, seleção e tradução, a qual, por sinal, foi premiada com o Jabuti no ano seguinte. Qual foi o critério de escolha dos poemas?

AB: Estudei durante anos a poesia de Marina Tsvetáieva com Liuba Kusnetsova (testemunha ocular de seu tempo), mas escolhi para publicar apenas os poemas cuja transposição para o português pareceu mais satisfatória.

RK: No prefácio, você diz que Tsvetáieva era uma poeta “quase sempre ‘possessa’”. Poderia falar um pouco do temperamento, digamos, febril de Marina, pensando nos reflexos disso em sua poesia?

AB: Quem escreveu muito sobre esse aspecto de Marina foi o eslavista suíço Georges Nivat, cujos livros recomendo, especialmente o último que prefaciou: Le cahier rouge, fac-símile de diários da poeta (Paris, Éditions des Syrtes, 2011). Os reflexos do temperamento de Marina em seus versos estão na obrigatoriedade da “inspiração”. Os versos brotavam nela como milagres, algo como o sonho, que depois ela retrabalhava num conjunto: o poema.

RK: Os amores de Marina Tsvetáieva, alguns recíprocos, tornaram-se célebres. Entre seus afetos, estavam Óssip Mandelstam, Boris Pasternak, Rainer Maria Rilke, Anna Akhmátova... Essa relação tão intensa de Marina com outros escritores marcou sua poética de alguma maneira?

AB: Sim: ela escreveu versos tão inspirados nesses seres que, como homenagem e/ou como contágio, seu estilo se aproxima aos deles, especialmente nos poemas a eles dedicados.

RK: No ano passado, saiu na Cult um ensaio seu (“Os dois gênios sobre sob o crivo da história”, Novembro, 2011) comparando os trabalhos de Dostoiévski e Tolstói. Outra comparação normalmente feita é entre Marina Tsvetáieva e Anna Akhmátova, que, a propósito, você também traduziu (Réquiem, Art Editora, 1991). É possível definir um breve paralelo entre as poetas?

AB: Pessoalmente, nas traduções que empreendi, achei as duas poetas bastante diferentes. Akhmátova, mesmo quando não escreve em metro (em Réquiem usou a sucessão de sílabas longas e breves, e não as rimas, as assonâncias e o ritmo a que estamos acostumados), pareceu-me mais épica do que lírica.


Sobre questões da tradução

RK: Ao ler suas traduções e seus ensaios sobre tradução literária, percebemos que, como no caso de Boris Schnaiderman ou de Haroldo de Campos, para você o traduzir é um processo criativo, ou de “recriação”? Qual é o limite da liberdade do tradutor?

AB: O limite da liberdade do tradutor é o seu talento. Por mais esforçado, mesmo em se tratando de prosa artística, ele destoa.

RK: No livro de Marina Tsvetáieva há uma colaboração do Augusto de Campos, assim como você já trabalhou com o Haroldo de Campos. [Aurora traduziu para o italiano uma coletânea de poemas de Haroldo de Campos e com ele traduziu Ungaretti: Daquela Estrela à Outra, Ateliê, 2003, premiado com o segundo lugar do Jabuti no ano seguinte]. Como foi a experiência de tradução com os irmãos Campos?

AB: Embora ambos criativos, as traduções dos irmãos Campos são um pouco diferentes. Talvez, nas traduções, Haroldo dê mais ênfase ao conceito, e Augusto ao som.

RK: Você fez importantes traduções do inglês e do italiano, como de George Steiner, Umberto Eco, Luigi Pirandello, Ermanno Stradelli, Dino Campana, etc. Com a experiência de traduzir outras línguas, quais as questões específicas que enxerga no trabalho com o idioma russo?

AB: No que se refere à prosa, as questões cruciais são específicas de cada autor, dentro de dada língua. Já na poesia, a tradução do russo, frente às línguas citadas, é a mais difícil.

RK: O russo não é uma língua de base latina, é muito consonantal e segue outra estrutura gramatical, o que produz um ritmo sonoro bem distante de nossos ouvidos. Como verter essa sonoridade para o português?

AB: Justamente por isso é difícil. Cada caso é um caso.

RK: É cada vez mais frequente a tradução feita a quatro mãos. O que você acha desse processo e como ele acontece no seu caso?

AB: Aconteceu, em traduções em prosa, mas não mais, a não ser que cada tradutor seja autônomo em relação àquilo que traduz. Trata-se, então, de uma coletânea, e não de uma colaboração.

RK: Com quais autores russos sente vontade de trabalhar agora?

AB: Sempre com poetas, ou melhor, sempre com poemas que me impressionem.

RK: Que conselhos você daria a um jovem tradutor?

AB: Só seja tradutor se você tem propensão a ler e a escrever obras literárias: a experiência do processo criativo é fundamental e os modelos dos bons escritores ajudam bastante.


Sobre a cena contemporânea

RK: Você se tem dedicado à tradução de novos poetas russos, como Vera Pávlova, Timur Kibírov, Gliéb Chulpiakóv, Tarássik Petritchenka... Sem desprezar o estilo de cada um, você enxerga algumas tendências comuns?

AB: A contemporaneidade.

RK: No ano passado, tivemos a chance se assistir em São Paulo a um seminário da crítica Marjorie Perloff, que afirmou que a poesia americana passa por uma espécie de crise criativa. Conforme ela, de forma geral, mesmo bons poetas não se destacam exatamente pela originalidade, mas pela forma com que eles integram várias expressões artísticas, numa espécie de colagem. Você acha que esse fenômeno se reflete na Rússia?

AB: Sim, está dentro da contemporaneidade, embora a percepção dela seja diferente nos dois países.

RK: A literatura russa ganhou um destaque maior no Brasil, tanto do público quanto das editoras, de 2000 em diante, mesmo com traduções antológicas anteriores, agora redescobertas e relançadas. Você esboçaria alguns motivos para esse crescente interesse pela cultura russa?

AB: Aprofundam questões últimas e parodiam questões laterais.


Outras criações

RK: Você é também escritora e poeta. A literatura russa, ou algum autor específico dela, representou uma chave importante para a sua criação?

AB: Não conscientemente.

RK: Além disso, também é pintora. Faço a mesma pergunta: os pintores russos, sobretudo os de vanguarda, têm algum reflexo no seu trabalho?

AB: Idem.

RK: Uma das marcas de sua trajetória é a versatilidade. Você lida com vários campos da criação com um olhar sempre original, profundo e independente. Na prática, esses conhecimentos se misturam? Como é o seu processo de criação?

AB: Em literatura o processo começa com alguma motivação: alguma leitura especial, alguma pessoa especial, alguma imagem especial, algum sonho especial, a que eu queira como que “responder”. Já na pintura os processos dependem do gênero. Na retratística e na paisagística, começo com uma cuidadosa cópia do natural a lápis, com o máximo de técnica que eu possua (sempre pouca). Depois, na hora da pintura, concedo-me maior liberdade, chegando mesmo a modificar ou a comprometer o “alinhavo”. Já a pintura abstrata responde a impulsos do momento e à continuidade do processo que, aos poucos, vou reconhecendo. Só no fim interpreto o que pintei.

 

Notas

1Da introdução: a quem interessarem os primeiros momentos da divulgação da literatura russa no Brasil, há um livro publicado a respeito: Da estepe à caatinga: o romance russo no Brasil (1887-1936) (Edusp, 2011), de Bruno Barretto Gomide.
2Além da Universidade de São Paulo (USP), há departamentos de russo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 
3O livro Poesia russa moderna recebeu uma edição ampliada e revisada da editora Perspectiva (São Paulo, 2001).
4O artigo de Aurora Bernardini sobre Boris Schnaiderman poderá ser lido na íntegra na Revista da Biblioteca Mário de Andrade n.67, que será lançada em meados deste ano. A grafia “Chnaiderman” foi usada pela Aurora, pois só mais tarde, como ela explica, o prof. passou a assinar seu nome como hoje conhecemos.

 

Escute a reportagem sobre a Aurora Bernardini na rádio Voz da Rússia (15:05).

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